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		<title>Futuro pra quem?</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Dec 2024 17:00:36 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Estou escrevendo este texto de um dos lugares mais privilegiados que pode existir atualmente: a minha casa. Privilegiado por que sou um homem branco, com acesso ilimitado à internet e a todo tipo de informação que eu precisar, comida na geladeira, televisão, roupas, produtos de limpeza, álcool em gel e água potável. Assim, estamos, eu [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Estou escrevendo este texto de um dos lugares mais privilegiados que pode existir atualmente: a minha casa.</p>
<p>Privilegiado por que sou um homem branco, com acesso ilimitado à internet e a todo tipo de informação que eu precisar, comida na geladeira, televisão, roupas, produtos de limpeza, álcool em gel e água potável. Assim, estamos, eu e meu cachorro Graciliano, seguros da maior crise de saúde pública do século. Mas seguros dentro de uma fração delimitada.</p>
<p><strong>O mundo lá fora não tem essa realidade.</strong></p>
<p><strong><a href="https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/05/download.jpg?ssl=1"><img data-recalc-dims="1" fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-18971" src="https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/05/download.jpg?resize=300%2C168&#038;ssl=1" alt="" width="300" height="168" /></a></strong></p>
<p>Perdi as contas de quantos dias estou em casa. Não dá mais pra contar o tempo a partir do nosso cotidiano: todo dia parece domingo. Às vezes, um domingo com trabalho, outras um simples e melancólico domingo. Todo mundo em casa, a rua meio vazia, dormindo a tarde e vendo alguma porcaria à noite antes de dormir. Difícil pensar em segundas-feiras sem todo o itinerário que envolvia o trabalho tal como ele era, uma reunião, começar ou não uma dieta, ir ou não para a academia. Até mesmo as ressacas do final de semana estão em quarentena. Vez ou outra, uma leve dor de cabeça de tanto tomar vinho pra tentar dormir.</p>
<p>Todo dia parece domingo.</p>
<p>E, de novo, falo de um lugar privilegiado. E eu preciso reforçar isso a todo instante. Neste texto e para mim mesmo. Esse conceito muda tudo. Muda a forma de encarar esses tempos. Entender o nosso lugar de privilégio, penso, é o que vai permitir que a gente enxergue e aja de outra forma, abrindo espaços e diálogos. E repito isso com amigos, colegas, parentes e até pessoas desconhecidas que encontro no único dia da semana em que eu saio na rua para ir ao mercado &gt; farmácia &gt; sacolão. E raras vezes, ao pet shop.</p>
<p>São saídas tristes. Ando na rua e tenho vontade de chorar. Falo sozinho atrás da máscara e a cada passo, noto que estou fora de forma, mesmo apesar de ter tentado, no começo, seguir uma rotina de exercícios diários. Mas que logo troquei por garrafas de vinho, cerveja, série ruim e cigarro.</p>
<p>Me sinto como o James Stewart em Janela Indiscreta: olho pra fora e já conheço os(as) vizinhas (os); que horas desligam as luzes, quem fuma na janela, os mais politizados que batem panelas em protestos e os que fecham as cortinas quando começam as paneladas. E pra deixar tudo ainda mais hitchcockiano, semanas atrás houve um assassinato no prédio da frente. Tudo foi acompanhado com uma certa comoção, mas logo todo mundo entrou e esqueceu.</p>
<p>Perder a vida hoje em dia parece só um número.</p>
<p>No começo, fiz uma planejamento detalhado de atividades para a quarentena: ler os livros que estavam empilhados na mesa de cabeceira e na mesa da sala, estudar mais história para achar brechas e respostas para possíveis saídas disso tudo, fazer os tantos cursos que empresas disponibilizaram numa tentativa de solidariedade e compartilhamento de conhecimento (pra quem, né?), aprender a fazer receitas da Rita Lobo, assistir e rever todos os filmes do Almodovár, do Kubrick, do Win Wenders e tentar escrever meu próximo livro. Como resultado, tive o início de síndrome do pânico.</p>
<p>Hoje, como o poema do Álvaro de Campos, o que sinto é cansaço.</p>
<p>Que vai além de não fazer nada. Mas de muita coisa que fui acompanhando nesses meses que já parece quase um ano. A crescente <em>livização do conhecimento</em>, o problema das escolas e sua ineficiência com o ambiente digital para continuar suas aulas, as muitas empresas que da noite para o dia se “digitalizaram” e, claro, aos novos profetas do futuro pós apocalíptico.</p>
<p>Quase como aquele meme “onde vivem, o que comem” etc., vi surgir uma quantidade inexplicável de auto proclamados futuristas, além dos que aqui já existiam. Parece, enfim, que todos têm uma resposta para o que estamos vivendo. Para eles, a crise é uma oportunidade para abrirmos as portas para esse tão esperado e glorioso futuro. A crise está acelerando mudanças que já estavam por vir. Mas, eu me pergunto:</p>
<p><em>Futuro pra quem?</em></p>
<p>Há mais ou menos três anos, comecei a ir em busca de algumas respostas. Até mesmo pelo meu próprio trabalho que envolve tecnologia e uma busca cansativa por “novidade”, precisei ir atrás do que estava acontecendo e o que poderia acontecer com o mundo com a chegada da tal 4ª revolução industrial e seus impactos no trabalho, educação, na vida em geral. Fiz cursos, li livros e textos no medium, assisti incontáveis TEDs e conheci muita gente empenhada em desvendar o futuro.</p>
<p>Quando você começa, é tudo muito sedutor: <em>self driving cars</em>, inteligência artificial, robótica, biotecnologia, nanotecnologia e todas as “<em>gias</em>” que possam existir. O Blade Runner do futuro que estava aparecendo para mim, já parecia mais um Black Mirror com final feliz. Mas não foi difícil começar a perceber que eu estava em um grupo ainda mais privilegiado do que o que eu estava acostumado. Somente brancos, altamente graduados, com ótimos cargos em empresas que parecem ter saído de um livro do Isaac Asimov. Nenhuma pessoa negra, eu quase como o único homossexual e, claro, todos muito “bem de vida”. Não demorou muito para pergunta surgir:</p>
<p><strong><em>Futuro pra quem?</em></strong></p>
<p>Nenhum livro, palestra ou TED previu a chegada do covid-19 e seus desdobramentos políticos e sociais. Lembro só de ter visto, acho que em 2017, o Bill Gates falando que a próxima crise seria uma pandemia.</p>
<p>Algumas semanas atrás, vi no perfil no linkedin de um conhecido que, antes da pandemia, era facilitador de treinamentos corporativos, se definir como um futurista. Mais um sintoma de uma soma de eventos que estão acontecendo de quem está ditando as regras no meio de um jogo que parece não ter um vencedor no final. E a minha pergunta, título deste texto, faz a referência a esse tal dito futuro que está sendo construído para muito poucos? Até mesmo criaram e se servem do slogan “novo normal”.</p>
<p><strong><em>Novo normal pra quem?</em></strong></p>
<p>Entregadores de comidas e serviços de plataformas digitais, motoristas de Uber, caixas de supermercado, cobradores de ônibus, estudantes de periferia e a lista pode continuar interminavelmente. E o futuro dessas pessoas? Como discutir um suposto “novo normal” se pautando em “<em>boom</em>” de crescimento de vendas <em>on-line</em>? Dizer que o “novo normal” será o trabalho remoto, me parece, ser o mesmo que assumir que a desigualdade que está tão transparente agora, deve ser permanecida para sustentar tudo isso. Em um país intercontinental como o Brasil, com estruturas e um tecido social bastante complexo, a crise parece ter relevado ainda mais o quanto estamos longe do futuro Jetsons e mais próximos de um romance regionalista da década de 30. A desigualdade vem caminhar junto da falta de empatia. O novo normal será dos privilegiados trancafiados em casa, enquanto a grande maioria sequer consegue lavar as mãos? Não tem como não nos perguntarmos:</p>
<p><strong><em>Novo normal pra quem? Futuro de quem?</em></strong></p>
<p>E em um grupo de WhatsApp com essas mesmas pessoas que discutem tendências, lentes para enxergar o futuro ou qualquer coisa que o valha, recebo a seguinte mensagem:</p>
<p><em>“uma hora dessas, nasce um bebê com uma mutação genética que protege ele e os descendentes contra corona e ai reseta tudo”. </em></p>
<p>E você pode achar que nada disso que eu to falando têm muito sentido. Eu mesmo acho que não tem. Mas eu começo aqui a minha coluna, com um diálogo aberto para falarmos sobre tudo isso. Se vai haver um certo ou errado, não sei dizer. Mas cada semana, vou trazer uma provocação. Tecnologia, educação, futuro. Está tudo em jogo agora. E discutir, parece ser o primeiro passo para entender se, de fato, vai haver um impacto positivo disso tudo que estamos vivendo.</p>
<p>E toda vez que toco nesse assunto, lembro da capa da New Yorker.</p>
<p><a href="https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/05/2017_10_23.jpg?ssl=1"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-18970" src="https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/05/2017_10_23.jpg?resize=220%2C300&#038;ssl=1" alt="" width="220" height="300" srcset="https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/05/2017_10_23.jpg?resize=220%2C300&amp;ssl=1 220w, https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/05/2017_10_23.jpg?w=280&amp;ssl=1 280w" sizes="(max-width: 220px) 100vw, 220px" /></a></p>
<p>Eu acendi um cigarro agora. Eu sei, parece estranho fumar no meio de uma crise de saúde respiratória. Por enquanto, to fazendo o meu melhor. Tentando sobreviver. Assim, como você deve tá fazendo o seu também.</p>
<p>Um motoboy com uma bolsa do Rappi passa e estaciona em frente ao prédio. To terminando de escrever esse texto. Olho para baixo e vejo que ele deixou a comida na porta. Sem contato com o entregador. Começo a pensar em como será o trabalho no futuro. Claro, minha preocupação como um homem gay privilegiado é totalmente diferente das pessoas em situação de vulnerabilidade. Não tem como não relacionar isso sempre. O entregador foi embora. E de novo eu me pergunto:</p>
<p><strong>Futuro pra quem?</strong></p>
<p><em>Por Vitor Richner</em></p>
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		<title>O ano do pensamento mágico</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Jun 2020 04:51:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Meu pai tinha acabado de morrer. A empresa onde eu trabalhava há três anos anunciou que ia fechar as portas. Minhas amizades de anos, ruindo. Esse foi o prefácio das minhas férias no ano passado. Tudo marcado, agendado e parcialmente pago à vista e parcelado. Lembro que chamei o Uber na madrugada de uma terça-feira [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Meu pai tinha acabado de morrer. A empresa onde eu trabalhava há três anos anunciou que ia fechar as portas. Minhas amizades de anos, ruindo.</p>
<p>Esse foi o prefácio das minhas férias no ano passado. Tudo marcado, agendado e parcialmente pago à vista e parcelado. Lembro que chamei o Uber na madrugada de uma terça-feira de outubro e no caminho pela marginal Tietê deserta, senti um nó no estômago pensando se eu deveria ou não fazer aquela viagem em um clima tão instável. Eu não sabia na hora, mas aquela viagem mudaria minha vida.</p>
<p>Eu fui. E parte de mim, não voltou mais.</p>
<p><a href="https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/06/show_de_truman_vob.jpg?ssl=1"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-19154" src="https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/06/show_de_truman_vob.jpg?resize=300%2C172&#038;ssl=1" alt="" width="300" height="172" srcset="https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/06/show_de_truman_vob.jpg?resize=300%2C172&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/06/show_de_truman_vob.jpg?w=752&amp;ssl=1 752w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a></p>
<p>Dias depois de chegar no deserto do Atacama, o país sofreu um abalo sísmico-social. Por toda a parte, chilenos pareciam ter despertado de uma espécie de coma induzido. Eu sabia muito pouco da história chilena. Meu conhecimento buletizado de eventos políticos se restringia a uma das piores ditaduras da América do Sul e ao um enganoso ideal de superação política. Um oásis em meio ao subdesenvolvimento, lembro de ter lido.</p>
<p>Cheguei em Santiago em meio a cheiro de gás lacrimogêneo, borracha queimada e comida colombiana. E foi ali, no meio desse caos, que sentei em um restaurante na praça principal, com tocadores de tambor, pombos e vendedores ambulantes que, entre um canecão de chope e água com gás, eu me transformei. Não foi coincidência que ali, entre tanques de guerra, bombas e paneladas, também determinei quais caixas eu levaria na minha mudança e quais quinquilharias eu deixaria para trás.</p>
<p>E apesar do clima, a única sensação que eu conseguia experimentar era a de paz.</p>
<p>O exercício de se conhecer é um dos mais difíceis. Assumir que não somos bons o suficiente (para quem, né?), assumir nossas falhas, nosso jeito de afetar o mundo e as pessoas. Mas, principalmente, assumir as nossas violências. Violência sentido da topologia da violência com uma manifestação microfísica. E a linguagem é um dos maiores caminhos da violência. Por isso, temos tanto medo de nomear as coisas. Se não tem nome, não existe.</p>
<p>Um amigo na faculdade se referia a uma conhecida como tendo uma “voz de pêssego”. Sabe? Aquela voz aveludada, gentil, que esconde o caroço deformado e duro por dentro. Sempre lembro dessa expressão e ouço ressabiado as tais vozes de pêssego.</p>
<p>Em uma manifestação social, a linguagem autoritária não é aquela apenas da ordem. Do imperativo. Mas é aquela que não aceita, que rejeita e que destrata, mesmo no virtual, o outro e seus afetos. É o conhecido “falar mal”.</p>
<p>Olhar para essa arqueologia, nos faz entender que a obstinação humana foi o que levou Freud a admitir a existência do impulso para a morte como um gerador de impulsos destrutivos que vão circulando até serem descarregados em um objeto.</p>
<p>É no outro que descarrego meu impulso:</p>
<p>Eu sou feio, mas é o outro que não atende aos padrões eurocentrados de beleza. Estou solteiro, mas é porque os outros é que são desinteressantes. Eu não tenho dinheiro, mas é o outro que está gastando demais. E por ai vai um longo caminho de construção autoritária e violenta.</p>
<p>O pensamento mágico é constante.</p>
<p>Em agosto de 1578, morre em Portugal o rei Dom Sebastião. Solteiro e sem filhos, deixou um espaço vazio de legado que gerou um sentimento eterno nos portugueses que passaram a esperar por um novo rei que iria restaurar a glória portuguesa. Fácil de encontrar na literatura e na poesia, esse sentimento, chamado de sebastianismo é algo bastante curioso. Ele se traduz nesse contexto de pensamento mágico. Para se ter uma ideia do poder do sebastianismo, essa ideia aparece nos registros da guerra de canudos em 1897 com Antonio Conselheiro prometendo a volta do rei Dom Sebastião aos seus seguidores.</p>
<p>É parte da nossa cultura o sebastianismo. Anda de mãos dadas com o pensamento mágico. E nos afeta como pessoas e como construção de identidade nacional: o Brasil está mal, quem vai nos salvar? Tancredo Neves! O Brasil vai ser salvo por um homem correto, jovem e firme, que vai varrer a velha política: Fernando Collor de Mello. O Brasil está economicamente prestes à falir, quem vai arrumar a economia? Fernando Henrique Cardoso. Não, o que o Brasil precisa é ser salvo por um homem do povo: Lula. Não, o Brasil vai ser salvo por alguém que coloque o país acima de tudo: Bolsonaro.</p>
<p>A esperança no sebastianismo está quase como um DNA nosso. Estamos sempre a espera de um milagre que vai nos salvar de nós mesmos. Nesse sentimento, o ruim é outro, o errado é o outro. O “Eu” se torna um coadjuvante frente a linguagem violenta, passivo, condolente e livre de obrigações. Não será uma recomendação de entidades e profissionais de saúde que vai nos livrar de uma pandemia: será um milagre, vindos dos céus, pelas mãos de anjos que vai nos salvar.</p>
<p>E na falta da resposta a esse protagonismo, ficamos em silêncio. Já reparou como existe uma máxima nas aulas de história de que o Brasil nunca passou por uma guerra? Temos revoltas populares, levantes, manifestações, mas nunca guerras. Um silêncio que rege as violências.</p>
<p>Para se ter uma ideia, a palavra feminicídio só entrou no nosso vocabulário em 2015.</p>
<p>Enquanto estava sentado naquela praça, entendi que meu mundo era sempre o mundo do outro. Eu era violento, mas era o outro que me provocava expressões violentas. Atitudes, discursos, verdades violentas estavam sempre de mãos dadas comigo. Quando não as pessoas, o problema era o Brasil. O Brasil era violento e autoritário. E de fato, é, como provou a historiadora Lilia Schwarcz. Mas difícil foi entender que, na verdade, eu era o reflexo desse país. Um filho da pátria que absorveu essas características. O retrato do Brasil.</p>
<p>Romper padrões, romper com o pensamento mágico e com a forma como ele constrói mundos e realidades, é mais difícil do que se imagina. É um exercício diário. A sensação é que sobrevivi a mim mesmo. As coisas precisam ter nomes. A gente precisa encontrar formas de quebrar as violências. Todos os dias, o tempo todo.</p>
<p>E como o pensamento mágico é autorreferencial, fugir dele é um exercício solitário. E silencioso.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Agora, uma ideia que está zumbindo no meu ouvido: somos um país de silêncios. Mas deve ser justamente por isso que somos tão barulhentos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por Vitor Richner</p>
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		<title>Toda história é remorso &#8211; A convenção conservadora do novo normal</title>
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		<dc:creator><![CDATA[vitorlrichner]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 Jun 2020 00:11:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Tem gente que diz que sou do contra. Que tô sempre com a bala na agulha pra disparar em alguém. Metaforicamente, é claro. Atirei em seus olhos: lembro dessa frase de um livro da Natalia Guinzburg. A literatura me assombra. Desconfio de tudo. Tenho uma certa adoração por teorias da conspiração e tô sempre pensando [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Tem gente que diz que sou do contra.</p>
<p>Que tô sempre com a bala na agulha pra disparar em alguém. Metaforicamente, é claro. <em>Atirei em seus olhos</em>: lembro dessa frase de um livro da Natalia Guinzburg. A literatura me assombra. Desconfio de tudo. Tenho uma certa adoração por teorias da conspiração e tô sempre pensando nelas. Fazendo conexões com coisas que são puro fruto da minha cabeça. De conspirações políticas aos mais variados e corriqueiros eventos do dia a dia, como trânsito <em>versus</em> gasolina, acordo imaginando tramas e vou dormir com caraminholas dignas da personagem Carrie da série Homeland.</p>
<p>E não estão de todo errados. Minha desconfiança não se dá só para tramas absurdas. Sempre que ouço ou leio uma expressão que, do dia pra noite, começa a circular por aí, acende em mim um alerta. Especialmente essas que querem sempre explicar tudo. E tudo, na maioria das vezes, ou não quer dizer nada ou não explica nada.</p>
<p>Com algum tempo livre para ler quase de tudo encontrei uma expressão nova, acho que mês passado ou retrasado: estava no linkedin um <em>repost</em> de uma conhecida de um texto que dizia “O novo normal etc. etc. etc.”. Um título bem otimista sobre como a sociedade está encontrando “novas” formas de lidar com a crise.</p>
<p>Será que eu li direito?</p>
<p>Pensei. Logo em seguida, vieram <em>start ups</em>, pessoas do ramo da tecnologia, futuristas, tarólogos, “livenistas” e até imaginei que ao ir no sacolão ia acabar dando de cara com alguma capa de revista com esse título. E não deu outra: Gisele Bündchen em um editorial de capa da Vogue e logo abaixo o famigerado título. Uma mulher linda, alta, magra, de olhos claros com uma máscara cirúrgica jogada para trás: <em>o novo normal</em>. Algo como um guia de como simplificar a vida em tempos de crise. Um verdadeiro glamour em pê e bê.</p>
<p><a href="https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/06/capa-vogue-maio-2020-1.jpg?ssl=1"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-19093 size-medium" src="https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/06/capa-vogue-maio-2020-1.jpg?resize=300%2C198&#038;ssl=1" alt="" width="300" height="198" srcset="https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/06/capa-vogue-maio-2020-1.jpg?resize=300%2C198&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/06/capa-vogue-maio-2020-1.jpg?resize=768%2C506&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/06/capa-vogue-maio-2020-1.jpg?resize=90%2C60&amp;ssl=1 90w, https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/06/capa-vogue-maio-2020-1.jpg?resize=180%2C120&amp;ssl=1 180w, https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/06/capa-vogue-maio-2020-1.jpg?resize=95%2C64&amp;ssl=1 95w, https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/06/capa-vogue-maio-2020-1.jpg?w=840&amp;ssl=1 840w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a></p>
<p>Daí pra frente, foi ladeira abaixo.</p>
<p><em>“É preciso que algo mude para que tudo fique absolutamente igual”</em>. Lembrei dessa frase do Lampedusa. Fiquei matutando alguns dias sobre e resolvi ir em busca dos paladinos da nova normalidade: uma narrativa feita por homens, brancos, de classe alta e celebrados pelos seus discursos sempre otimistas e com olhares positivos sobre a atual crise. E indo mais a fundo fui entender as perspectivas de cada um. Se fosse no livro na Natalia, eu poderia dizer que “atiraram em meus olhos”. Mas tudo me pareceu mais um excesso de esforço para a continuidade de preservação do que um guia de sobrevivência. Por que não viver no caos, ao invés da normalidade? Pensei&#8230;</p>
<p><em>Normal pra quem?</em></p>
<p><em>E o que seria seu anormal?</em></p>
<p>Muitos normalistas diziam sobre os novos hábitos de se relacionar: viveríamos sob a máscara cirúrgica, agora confeccionadas por marcas glamourosas e com preços abusivos.</p>
<p>Outros arriscaram se embrenhar pela educação: a aceleração de algo que estava para acontecer. Com as salas de aula fechadas, estaríamos na nesse suposto futuro das aulas virtuais (ou remotas?)</p>
<p>E outros foram para o conceito romântico do lar: de como driblar a sanidade mental e o tédio para viver “bem” em suas casas.</p>
<p><em>Atiraram em meus olhos. </em></p>
<p>A história sempre deu vários exemplos de acidentes que alteram o curso da “normalidade” da sociedade. Acidentes naturais e guerras tem essa coisa de fazer com que a gente se mova um pouco no terreno seguro das nossas confortáveis certezas.  Mas quanto tempo dura isso? Penso na Natalia Guinzburg: uma mulher escrevendo na Itália pós-guerra. O mundo em ruínas, com suas esperanças decapitadas e ela encontrando formas de se fazer uma literatura linda, mas nada “normal”.</p>
<p><em>Afinal, o que não é normal?</em></p>
<p>De novo, volto para a história. Olhando pra trás, sempre que saímos de uma crise e superados os medos e inseguranças, aparentemente começam a emergir nossas velhas e boas verdades. Ou seja, alguma coisa tem que mudar, desde que tudo permaneça como antes: quero continuar indo às compras no shopping, mas agora pela internet; quero continuar estudando, mas agora sentado no meu novo home office, confortável e seguro com minha internet wifi 5G. Olho e gozo do meu lar quentinho e seguro.</p>
<p>O “novo do normal” parece aquele chorinho de chope no fim da noite.</p>
<p>Sou sempre desconfiado de quem é otimista demais. É um perigo pensar que sempre tudo dá certo. Que no fim, a Disney vai reescrever nossas narrativas. Penso que quem é otimista demais, está sempre escorregando em terrenos bem arenosos. Um pântano, na verdade. Por isso gosto tanto de uma expressão da Rebecca Solnit: <em>banalidade do bem</em>. Achar que somos uma única sociedade onde ninguém solta a mão de ninguém, onde todos unidos venceremos, uma linda pintura com tigres, pássaros, rios e árvores. Assim, projetemos verdades universais para um coletivo que não existe.</p>
<p>Veja, no Brasil:</p>
<h2>20% das pessoas habitam casas de apenas um único cômodo com outros habitantes. 50% das casas não têm acesso ao esgoto sanitário. 33 milhões de brasileiros não têm abastecimento de água confiável. A PNAD Contínua de TIC de 2018 mostrou que 1 em cada 4 pessoas no Brasil não tem acesso à internet.</h2>
<p>Todas publicações, <em>lives</em>, <em>stories</em>, <em>mediuns</em> e qualquer coisa que o valha, diziam que o “novo normal” seria uma tal de economia da vida: não vamos viajar tanto, não vamos mais gastar tanto com roupas, menos consumistas, e, claro, vamos cozinhar (quando der) e até fazer faxina na casa por conta própria. Me lembra um pouco outra expressão: w<em>hite people problems.</em> Não?</p>
<p>E, claro, como sou muito desconfiado, não dá pra não perguntar:</p>
<p>“Novo normal” para quem?</p>
<p>É uma peça feita pra iludir. Uma trama mesmo que tenta, e talvez consiga, garantir que o status se mantenha, que a normalidade continue a reinar depois que tudo isso passar. Uma reportagem recente mostrou que a reabertura de uma filial da Hermés causou filas imensas na China. O mesmo com a Zara.</p>
<p>Nenhum novo normalista, desconfio, pensa em discutir como fazer para que o país se torne um lugar mais plural, generoso, inclusivo, menos racista. O que querem se não continuar em seus apartamentos aconchegantes, em seus silêncios noturnos (que é o que tem feito muito à noite), com a televisão ligada, comida quentinha e um belo edredom para esquentar essas noites de frio?</p>
<p>Desconfio que, talvez, seja isso mesmo</p>
<p>.<a href="https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/06/hopper4.3.jpg?ssl=1"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-19091" src="https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/06/hopper4.3.jpg?resize=252%2C190&#038;ssl=1" alt="" width="252" height="190" srcset="https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/06/hopper4.3.jpg?resize=300%2C226&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/06/hopper4.3.jpg?resize=45%2C35&amp;ssl=1 45w, https://i0.wp.com/www.tecnoveste.com.br/wp-content/uploads/2020/06/hopper4.3.jpg?w=700&amp;ssl=1 700w" sizes="(max-width: 252px) 100vw, 252px" /></a></p>
<p>Enquanto tiverem internet para ver e fazer lives, enquanto a luz estiver acesa, água potável para tomar banho e matar a sede, geladeira estocada, cartão de crédito para pedir comida, enquanto tudo ficar como sempre foi, vai ser fácil viver esse “novo normal”.</p>
<p>Driblar o tédio, parece fácil.</p>
<p>Mas, desconfio, não é assim tão fácil e normal driblar a fome.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Por Vitor Richner</em></p>
<p>O post <a href="https://www.tecnoveste.com.br/toda-historia-e-remorso-a-convencao-conservadora-do-novo-normal/">Toda história é remorso &#8211; A convenção conservadora do novo normal</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.tecnoveste.com.br">Tecnoveste</a>.</p>
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